DESAFIANDO O SEU TEMPO
Carlos de Abreu Amorim
Se um homem não marca o seu passo ao ritmo dos demais, pode ser que esteja a ouvir uma música com uma cadência diferente. Deixemo-lo caminhar no compasso da melodia que ele próprio ouve ainda que esse ritmo nos pareça distante.
Henry David Thoreau
Sempre conheci dois tipos de atitudes quando se trata de avançar soluções para os problemas da vida política neste país – aqueles que juram que as coisas estão a ser mal geridas mas que, quando têm oportunidade de estar no poder, fazem exactamente o mesmo que tanto criticavam aos adversários; e os outros, uma pequena minoria, entre nós já ao nível de “espécie em extinção”, que faz o que diz e diz o que pensa.
Paulo Morais pertence a este último grupo. Sempre o conheci com o mesmo timbre discursivo, com uma disposição inabalável quando se trata de defender aquilo em que acredita. Quer esteja no poder ou fora dele.
É que Paulo Morais teve a ousadia de, no exercício de cargos políticos, tentar aplicar as lógicas e as medidas que tinha prometido antes de ser eleito. Sem olhar aos interesses económicos, político-partidários, às múltiplas capelinhas e congregações de conveniência que pululam, impunemente, junto dos decisores públicos.
Ter-lhe-ia sido muito mais fácil fingir que não via, aparentar que não percebia, simular o mais que podia. Outros, quase todos, até porventura com maiores responsabilidades, escolheram esse caminho de duplicidade e conivência. Paulo Morais não. Porque quem é mesmo assim não consegue ser coisa diferente.
Desenganem-se, no entanto, os que possam pensar que Paulo Morais poderá vir a ter reconhecimento que se veja por causa disso – pelo contrário. Tenho para mim que a honestidade e a verticalidade são, entre nós, qualidades com escasso crédito, muito embora sejam constantemente esbanjadas no discurso político.
Mas a simples existência de alguém com a postura de Paulo Morais ofende grande parte da arrumação presente das coisas neste país: os dirigentes políticos ficam num irremediável desconforto por haver um deles que actua precisamente ao arrepio do que é comum e aceite fazer; muitos eleitores também não se sentem bem consigo próprios porque Paulo Morais, ao tornar público o modo iníquo como o sistema funciona, é a comprovação viva da falta de sentido das suas escolhas de quase sempre.

3 Comments:
Os meus votos para que o livro ajude a motivar todos os que não tem a sua força.
Cumprimentos
Ser sério no terceiro Mundo (não na Noruega) é um luxo supremo. Sai muito, muito caro!
Somos poucos mas bons.
Anónimo
Deposito uma enorme fé neste livro, que só peca por vir atrasado 40 anos. O território nacional está a saque por um urbanismo corrupto desde que foi publicada a primeira lei dos alvarás de loteamento (Decreto-Lei n.º 46 673 de 29 de Novembro de 1965). Vários académicos vêm denunciando o problema há mais de vinte anos, sem conseguir captar a atenção da opinião pública (vide Sidónio Pardal & Paulo VD Correia). Por fim Paulo Morais consegue criar um facto político capaz de denunciar esta abjecta corrupção.
Este comentarista também tem procurado denunciar o problema em jornais nacionais e locais. Sugiro que consultem o "post" de ontem do blog
http://ambio.blogspot.com
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