A despeito da sua longevidade, Portugal é um país de escassa vivência democrática, onde a frontalidade e a firmeza nos princípios se cumprem a custos muito elevados. Numa carreira pública, esse preço vai do ostracismo a formas outras de assassinato político.
Com tanta baixaria, o normal vai sendo, hoje, que os homens bons da terra se arredem cada vez mais da vida pública e, por via disso, são cada vez menos os que, com autenticidade, coluna vertebral e coerência de princípios, decidem dedicar-se à res publica.
Paulo Morais é um desses resistentes, a quem a firmeza nos princípios e um escrupuloso respeito pelo serviço ao público valeram uma dessas tentativas de homicídio político. E contudo move-se, prova-o agora com este seu livro em que nos dará testemunho do enquadramento estratégico que plasmou nas suas intervenções. Será por isso interessante, para além do registo casuístico, podermos aceder às motivações mais profundas da sua acção, ao modo como encara os problemas e as propostas que preconiza para os resolver.
Matemático com visão social, gestor com amor à cultura, Paulo Morais é um jovem que cultiva velhos amigos e que, na sua passagem pela Câmara Municipal do Porto, deixou uma marca de grande coerência e exerceu, com a competência estratégica que se lhe reconhece, a missão de estar onde era necessário, de assumir os riscos de uma equipa inteira, não voltando a cara nos momentos mais difíceis.
Ei-lo agora novamente frontal e coerente, em mais um passo da sua intervenção pública que se espera longa e profícua, para desconforto de quantos colocam o carácter na balança interesseira do mercado.
João Ogando
Maio 2006